Segunda-feira, 9 de Abril de 2012

MENSAGEM DE FINADOS

                                           I

Não desesperarei da Humanidade.
Por mais que o mundo, o acaso, a Previdência, tudo,
à minha volta afogue em lágrimas e bombas
os sonhos de liberdade e de justiça;
por mais que tudo o que a maldade busque
para encobrir-se traia o que ainda esperamos;
por mais que a estupidez rica de bens e audácia
estrangule a lucidez dos que vêem claro;
por mais que tudo caia, acabe, se suspenda;
por mais que a Humanidade volte ao bando apavorado
que os cães servis acossam aos redis avaros;
por mais que a noite desça, o frio gele
as últimas esperanças, em luar cendrado
cujo silêncio nem gritos de criança
possam trespassar; -
não desesperarei da Humanidade. Em vão
me aturdem, me intimidam, me destroem;
em vão se juntam todos imprecando ignaros. Não!
Podem fazer o que quiserem. Podem 
tornar-me anónimo, traidor ou prostituta,
que não desesperarei. Com os olhos postos 
na terra devastada em nome da justiça,
vendo os mortos e os assassinos mortos
que a liberdade em fúria assassinou,
ouvindo o lume negro, o odor sombrio
da paz sangrando apodrecida em escárnio, 
esperarei ainda e sempre. Para além
de mim, de tudo. Esperarei tranquilo.


8-15/11/1956




                                           II


Essa verdade: eu sei de cada qual.
Mas a mentira de uns não é a verdade de outros,
quando uns e outros gritam que a detêm,
como se fosso um património, um vínculo, uma pátria.
Não: má-fé, e nunca um erro.
Por todas as verdades à verdade vai
quem sem má-fé sobre ela se debruce.
Errando embora, a lealdade intacta
nos leva pura onde as verdades não.
E que é verdade, a última verdade?
Apenas ser-se humano além de nós;
ouvir e ver, e não houvir, nem ver,
quanto de nós e de outros nos divida.
Porque divisos somos na unidade extrema:
muitos em nós como nos outros muitos.
Mas de verdade e de erro nos unimos;
e de má-fé nos repartimos tanto
que nada resta: a própria morte morre
em vossas bocas que se fecham falsas
ou se abrem falsas para mais traição.
E em vossos gestos que, medrosos, tecem
a rede vil da falsa solidão.
Como quando a nós abandonamos
e aos outros entregamos o saber incerto
do que pensamos ser; ou como quando
levados vamos pelo vento odioso
que o mal profunda à nossa volta e em nós;
como quando não somos, além do que nos prende,
a soma derradeira que o fulgor da morte
instantânea fará no estrondo em que chegar;
eis a má-fé, eis a traição, a infâmia,
talhadas com fervor nas cómodas lembranças
de quanto é de família não amar o próximo
senão como um farrapo que se demitiu
qual nós nos demitimos não amando nele
a liberdade irredutível de ser quem
covardemente em nós não procuramos.
Que mundanal solicitude a vossa!
Protestai, defendei, gritai palavras
Essas palavras hão-de abandonar-vos,
e ver-vos ei sem elas, nus, despidos,
ante o espelho da vida que, real,
não há-de reflectir-vos essa imagem vã
com que iludiste a dignidade humana
na hora em que o silêncio era a verdade
do Amor traído em suas faces todas.


20/11/1956




                                         III


Na luz que vem tão luminosa e clara,
não é que vejo a esperança, nem nos gestos
mais simples, mais humildes, mais leais
que os homens fazem também para viver vencidos.
As vitudes da vida, a vida tem-nas
demais: porque se ajeita, se acomoda, se insinua
para durar, ou resistir, ou mesmo ser mais firme
que quanto a frágil esperança lhe diria.
Em nada disto posso ou devo esperar.
Na Providência não devo também crer,
que é dela mesma acontecer o mundo
como se ela não fora mais que um sonho,
uma saudade, uma suspeita, uma incerteza,
que a nós nos cabe imaginar tranquila.
E assim, na luz tão luminosa e clara
iluminados os homens e as cidades,
eis que um calor que me recorda o Verão
chega até mim, lembrando-me areais
e ventos suaves e arvoredos cálidos,
e o incessante sussurrar das águas
em toda a parte e desde sempre em tudo.
Não creio é certo; e, no que me lembro, menos
alguma vez aceitaria crer.
Mas lembro. E quando me esquecera,
quando perdera as últimas memórias,
quando em miséria o próprio jeito vivo
de recordar me abandonasse e pouco
eu mais ficasse sendo que uma dor
ambígua de durar sem tempo algum -
- só do poder lembrar que houvera em mim 
se justifica exacta e pura a esperança.


5/1/1957






JORGE DE SENA
       POESIA II